{"id":250,"date":"2021-12-07T10:27:53","date_gmt":"2021-12-07T10:27:53","guid":{"rendered":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/?p=250"},"modified":"2021-12-21T11:23:53","modified_gmt":"2021-12-21T11:23:53","slug":"triste-paladar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/2021\/12\/07\/triste-paladar\/","title":{"rendered":"Triste paladar?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">A partir de <em>Caderno de Viagem, <\/em>a segunda parte de <em>Tristes Tr\u00f3picos<\/em>, torna-se evidente que para L\u00e9vi-Strauss a viagem pelo Brasil \u00e0 procura de comunidades ind\u00edgenas, tamb\u00e9m ir\u00e1 ser um roteiro gastron\u00f4mico, cuja experi\u00eancia se dar\u00e1 atrav\u00e9s do olfato e do gosto, como mostra a seguinte cita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O Brasil se esbo\u00e7ava em minha imagina\u00e7\u00e3o como bra\u00e7adas de palmeiras esbeltas, dissimulando arquiteturas estranhas, tudo mergulhado num odor de ca\u00e7oila, pormenor olfativo introudzido subrepticiamente, segundo parece, pela homofonia inconscientemente estabelecida entre &#8222;Br\u00e9sil&#8220; &#8222;gr\u00e9siller&#8220;, e que, mais do que toda experi\u00eancia adquirida, explica que ainda hoje eu penso no Brasil antes de mais nada como num perfume queimado.<\/p><cite>L\u00e9vi-Strauss (1957), p. 43\/44<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A seguir, apresentar-se-\u00e1 alguns dos mais chamativos trechos que tratam dessas aventuras palatinas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"709\" height=\"528\" src=\"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/files\/2021\/12\/img-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-252\" srcset=\"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/files\/2021\/12\/img-1.jpeg 709w, https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/files\/2021\/12\/img-1-300x223.jpeg 300w, https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/files\/2021\/12\/img-1-620x462.jpeg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><figcaption>A miss\u00e3o de L\u00e9vi-Strauss em Mato Grosso (1935). \u00a9 mus\u00e9e du quai Branly, fonds Claude L\u00e9vi-Strauss<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Devem-se tamb\u00e9m mencionar os <em>koro<\/em>, larvas p\u00e1lidas que pululam em certos troncos de \u00e1rvores apodrecidas. [&#8230;] Assim, n\u00e3o \u00e9 coisa facil assistir \u00e0 extra\u00e7\u00e3o dos <em>koro. <\/em>Meditamos longamente nosso projeto, como conspiradores. Um \u00edndio febril, \u00fanico numa aldeia abandonada, parece uma presa f\u00e1cil. Pomos-lhe o machado na m\u00e3o, sacudimo-lo, empurramo-lo. Trabalho perdido, ele parece tudo ignorar do que queremos dele. Ser\u00e1 uma nova derrota? Tanto pior! Lan\u00e7amos nosso \u00faltimo argumento: queremos comer <em>koro.<\/em> Conseguimos arrastar a v\u00edtima diante de um tronco. Uma machadada abre milhares de canais vazios no mais profundo da madeira. Em cada um deles, uma grande larva de cor creme, bastante parecido com um bicho de seda. Agora, devemos cumprira palavra. Sob o olhar impass\u00edvel do \u00edndio, decapito a minha ca\u00e7a; do corpo, escorre uma gordura esbranqui\u00e7ada, que experimento n\u00e3o sem hesita\u00e7\u00e3o: tem a conist\u00eancia e a finura da manteiga e o sabor do leite de coco.<\/p><cite>L\u00e9vi-Strauss (1957), p. 166.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O lugar estava infelizmente infestado pelos insetos habituais: maribondos, mosquitos piums e borrachudos; havia tamb\u00e9m os <em>pais de mel, <\/em>isto \u00e9, as abelhas. [&#8230;] Mas, quem diz abelha diz mel, a cuja colheita \u00e9 l\u00edcito entregar-se sem perigo, abrindo os corti\u00e7os das esp\u00e9cies terrestres ou descobrindo numa \u00e1rvore oca os favos de c\u00e9lulas esf\u00e9ricas, grandes como ovos. Todas as esp\u00e9cies produzem mel de sabor diferente &#8211; recenseei treze &#8211; mas sempre t\u00e3o fortes que, a exemplo dos Nhambiquara, logo come\u00e7amos a dissolv\u00e9-lo na \u00e1gua. Esses perfumes profundos se analisam em diversos tempos, \u00e0 maneira dos vinhos da Borgonha, e sua singularidade desconcerta. Encontrei equivalente num condimento da \u00c1sia do sudeste, extra\u00eddo das gl\u00e2ndulas da barata, e custando o seo peso em ouro. Um nada \u00e9 suficiente para perfumar um prato. Muito vizinho \u00e9 tamb\u00e9m o odor exalado por um cole\u00f3ptero franc\u00eas de cor escura, chamado &#8222;procruste chagrin\u00e9&#8220;.<\/p><cite>L\u00e9vi-Strauss (1957), p. 285.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>J\u00e1 n\u00e3o chove h\u00e1 cinco meses e a ca\u00e7a desapareceu. Ainda nos damos por felizes quando conseguimos atirar num papagaio esquel\u00e9tico ou capturar um grande lagarto tupinambi para cozinh\u00e1-lo no arroz, ou assar na sua carapa\u00e7a um c\u00e1gado ou um tatu de carne gordurosa e preta. O mais das vezes, devemos contentar-nos com o xarque: essa mesma carne seca preparada h\u00e1 meses por um a\u00e7ougueiro de Cuiab\u00e1 e de que desenrolamos todas as manh\u00e3s ao sol, a fim de limp\u00e1-los de grossos peda\u00e7os fervilhantes de bichos, para encontr\u00e1-los no mesmo estado no dia seguinte.<\/p><cite>L\u00e9vi-Strauss (1957), p. 342.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Fomos tomados de frenesi alimentar: durante tr\u00eas dias s\u00f3 se couzinhou e comeu. Daqui para a frente n\u00e3o nos faltaria mais nada. As reservas, preciosamente poupadas, de a\u00e7\u00facar e de \u00e1lcool desapareceram, ao mesmo tempo em que experiment\u00e1vamos alimentos amaz\u00f4nicos: sobretudo os tocari, cuja polpa ralada enrgossa os molhos, formando um creme branco e untuoso. Eis o pormenor desses exerc\u00edcios gastron\u00f4micos, como o encontro ns minhas notas:<br><br>&#8211; colibris assados no espeto e queimados em &#8222;whisky&#8220;;<br>&#8211; rabo de jacar\u00e9 grelhado;<br>&#8211; papagaio assado e sapecado no &#8222;whisky&#8220;;<br>&#8211; guisado de jacu em compota de assa\u00ed;<br>&#8211; ensopado de mutum e de brotos de palmeira, com molho de tocari e pimenta;<br>&#8211; jacu assado com a\u00e7\u00facar queimado.<\/p><cite>L\u00e9vi-Strauss (1957), p. 343.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir de Caderno de Viagem, a segunda parte de Tristes Tr\u00f3picos, torna-se evidente que para L\u00e9vi-Strauss a viagem pelo Brasil \u00e0 procura de comunidades ind\u00edgenas, tamb\u00e9m ir\u00e1 ser um roteiro gastron\u00f4mico, cuja experi\u00eancia se dar\u00e1 atrav\u00e9s do olfato e do gosto, como mostra a seguinte cita\u00e7\u00e3o: O Brasil se esbo\u00e7ava em minha imagina\u00e7\u00e3o como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":685,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-250","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-postagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/685"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=250"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":265,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions\/265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/tristestropicos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}