{"id":220,"date":"2020-05-26T14:01:26","date_gmt":"2020-05-26T14:01:26","guid":{"rendered":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/amazonia\/?p=220"},"modified":"2020-05-26T14:04:19","modified_gmt":"2020-05-26T14:04:19","slug":"220","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/amazonia\/2020\/05\/26\/220\/","title":{"rendered":"A palavra e a cura: contar e escrever para que o c\u00e9u n\u00e3o caia"},"content":{"rendered":"<p>Janelas: ao escrever essas linhas de conclus\u00e3o de um semin\u00e1rio mais focado na leitura de A queda do c\u00e9u, Bruce Albert retuita uma informa\u00e7\u00e3o sobre a morte do segundo yanomami por coronavirus. O primeiro tinha sido um adolescente. O segundo, Flacido Yanomami tinha 68 anos e morreu em uma \u201cregi\u00e3o com 2051 ind\u00edgenas, segundo o Censo da Sesai de 2019\u201d. Ao longo do curso, estamos lidando com uma s\u00e9rie de refer\u00eancias a textos liter\u00e1rios, ensaios hist\u00f3ricos e cr\u00edticos, filmes, desenhos, fotografias e o presente n\u00e3o cessa de interferir de modo que nossa realidade mudou completamente. E fomos partilhando esta situa\u00e7\u00e3o juntos, de modo que forma e conte\u00fado foram se mesclando enquanto \u00edamos nos separando. Das aulas presenciais na sala D-31, do Romanisches Seminar, \u00e0s quintas-feiras, \u00e0s nossas telas e zonas privadas, fomos nos espalhando e nos confinando, cada um no seu espa\u00e7o e seguimos de algum modo em uma perspectiva do comum, dividindo leituras, discutindo textos e buscando um sentido para o que estamos estudando: \u201cAmaz\u00f4nia: imagin\u00e1rios da selva na literatura e nas artes.\u201d Curso no qual A queda do c\u00e9u \u00e9 uma lente de leitura, pois atrav\u00e9s da sensibilidade inaugurada por esse livro, estabelecemos contatos com outros textos e imagens.<br \/>\nBruno Latour: A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 distinta daquela mencionada por Bruno Latour que em Nous n\u2019avons jamais \u00e9t\u00e9 modernes (1991), inicia com o termo \u201ccrise\u201d. Latour folheia um jornal e comenta a diversidade de assuntos que escapam na grande parte das vezes do nosso conhecimento: medidas para a Ant\u00e1rtica, especialistas em qu\u00edmica da parte superior da atmosfera, grandes chefes e administradores da Atochem e Monsanto, s\u00e3o alguns dos assuntos na primeira p\u00e1gina do livro. Como se posicionar no mundo diante de tais crises? Como se posicionar diante da floresta que queima na sua extens\u00e3o territorial, nas p\u00e1ginas de jornal e que arde na nossa imagina\u00e7\u00e3o? Essas quest\u00f5es multiplicam desafios de leitura, ali\u00e1s, exigem que nossa leitura seja pol\u00edtica. Pol\u00edtica n\u00e3o no sentido restrito e partid\u00e1rio no sentido que o termo transfere \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e poderes de decis\u00e3o, mas no sentido das nossas escolhas do que lemos, das vozes \u00e0s quais damos aten\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta. A humanidade vive uma crise que tem uma hist\u00f3ria da pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o constante que \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o da vida coletiva. O que Bruno Latour chamou de fabrica\u00e7\u00e3o das nossas coletividades, que \u00e9 um modo de perceber como os cidad\u00e3os foram absorvidos no s\u00e9culo XVIII, os oper\u00e1rios no s\u00e9culo XIX e atualmente o lugar dos n\u00e3o-humanos nas nossas vidas: sensibilidades vegetais e animais, ao lado de sensibilidades t\u00e9cnicas e cient\u00edficas (p. 185-186). Nesse sentido, a hip\u00f3tese que atravessou o curso, a saber, se A queda do c\u00e9u pode inscrever-se como um marco para uma literatura p\u00f3s-etnogr\u00e1fica se sustenta fragilmente na sensibilidade que o olhar etnogr\u00e1fico inseriu no mundo moderno: talvez por em d\u00favida a modernidade \u2013 isto \u00e9, o sentimento de acelera\u00e7\u00e3o do tempo, a separa\u00e7\u00e3o entre vencedores e vencidos e a exist\u00eancia daqueles encerrados nos seus passados arcaicos e est\u00e1veis \u2013 seja uma das tarefas pol\u00edticas para delimitarmos os limites do humano que lia o seu jornal tranquilamente e fazia o percurso casa-trabalho ao longo dos anos, dividindo dias \u00fateis e fins de semana, f\u00e9rias e uma vida cercada por narrativas de consuma\u00e7\u00e3o t\u00e3o marcadas pela mitologia moderna (ver Roland Barthes e suas mitologias).<br \/>\nFotografia: Miguel Rio Branco<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Palavra Cura.WAV by Eduardo Jorge\" width=\"620\" height=\"400\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?visual=true&#038;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F828377134&#038;show_artwork=true&#038;maxheight=930&#038;maxwidth=620&#038;secret_token=s-jyJuKCUBhhs\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janelas: ao escrever essas linhas de conclus\u00e3o de um semin\u00e1rio mais focado na leitura de A queda do c\u00e9u, Bruce Albert retuita uma informa\u00e7\u00e3o sobre a morte do segundo yanomami por coronavirus. 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