{"id":194,"date":"2020-05-06T10:21:41","date_gmt":"2020-05-06T10:21:41","guid":{"rendered":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/amazonia\/?p=194"},"modified":"2020-05-06T10:51:29","modified_gmt":"2020-05-06T10:51:29","slug":"podcast-10-andersen-wu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dlf.uzh.ch\/sites\/amazonia\/2020\/05\/06\/podcast-10-andersen-wu\/","title":{"rendered":"PODCAST 10 &#8211; O c\u00e9u e a floresta por Andersen Wu"},"content":{"rendered":"<p>Quando, \u00e0s vezes, o peito do c\u00e9u emite ru\u00eddos amea\u00e7adores, mulheres e crian\u00e7as gemem e choram de medo. N\u00e3o \u00e9 sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do c\u00e9u, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na \u00e9poca. Est\u00e1vamos acampados na floresta, perto de um bra\u00e7o do rio Mapula\u00fa. T\u00ednhamos sa\u00eddo, com alguns homens mais velhos, \u00e0 procura de uma mo\u00e7a do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobl. Anoitecia. N\u00e3o havia nenhum ru\u00eddo de trov\u00e3o, nenhum raio no c\u00e9u. Tudo estava em sil\u00eancio. N\u00e3o chovia, e n\u00e3o se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos v\u00e1rios estalos no peito do c\u00e9u. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem pr\u00f3ximos. Era mesmo muito assustador!<br \/>\nAos poucos, todos se puseram a gritar e solu\u00e7ar de pavor no acampamento: \u201cA\u00eb! O c\u00e9u est\u00e1 despencando! Vamos todos morrer! A\u00eb\u201d. Eu tamb\u00e9m tinha medo. Ainda n\u00e3o havia me tornado xam\u00e3, e perguntava a mim mesmo, muito inquieto: \u201cO que vai acontecer conosco? Ser\u00e1 que o c\u00e9u vai mesmo cair em cima de n\u00f3s?: Vamos todos ser arremessados para o mundo subterr\u00e2neo?\u201d. Naquela \u00e9poca, ainda havia grandes xam\u00e3s entre n\u00f3s, pois muitos de nossos maiores ainda estavam vivos. Ent\u00e3o, v\u00e1rios deles come\u00e7aram a trabalhar juntos para segurar a ab\u00f3bada celeste. No tempo antigo, seus pais e av\u00f3s haviam ensinado esse trabalho a eles, que por isso foram capazes de impedir mais essa queda. Assim, depois de algum tempo tudo se acalmou. Mas estou certo de que, uma vez mais, o c\u00e9u tinha mesmo amea\u00e7ado se quebrar acima de n\u00f3s. Sei que isso j\u00e1 ocorreu, muito longe da nossa floresta, l\u00e1 onde a ab\u00f3bada celeste se aproxima das bordas da terra. Os habitantes dessas regi\u00f5es distantes foram exterminados, porque n\u00e3o souberam segurar o c\u00e9u. Mas aqui onde vivemos ele \u00e9 muito alto e mais s\u00f3lido. Acho que \u00e9 porque moramos no centro da vastid\u00e3o da terra. Um dia, por\u00e9m, daqui a muito tempo, talvez acabe mesmo despencando em cima de n\u00f3s. Mas enquanto houver xam\u00e3s vivos para segur\u00e1-lo, isso n\u00e3o vai acontecer. Ele vai s\u00f3 balan\u00e7ar e estalar muito, mas n\u00e3o vai quebrar.  \u00c9 o meu pensamento. (Albert, B.\/ Kopenawa, D., 2015: 194)<\/p>\n<p>Albert, Bruce \/ Kopenawa, Davi (2015): A queda do c\u00e9u: Palavras de um xam\u00e3 yanomami, trad. Beatriz Perrone-Mois\u00e9s, 1\u00aa ed., S\u00e3o <\/p>\n<p>https:\/\/soundcloud.com\/eduardo-jorge-393472897\/andersen-cap-8-o-ceu-e-a-floresta1\/s-JXMTQRnhYPV<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, \u00e0s vezes, o peito do c\u00e9u emite ru\u00eddos amea\u00e7adores, mulheres e crian\u00e7as gemem e choram de medo. N\u00e3o \u00e9 sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do c\u00e9u, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na \u00e9poca. 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